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Bastidores da Fama
De delegado a ator: a trajetória surpreendente de José de Abreu antes da fama na TV
José de Abreu foi escrivão e investigador da Polícia Civil de SP antes de se tornar ator. Conheça a história incrível por trás do vilão Nilo de Avenida Brasil.
Foto: Reprodução/Diário do Comércio
Diário do Comércio
Jornalista
Antes de se tornar um dos atores mais reconhecidos da televisão brasileira, José de Abreu trabalhou como escrivão e investigador na Polícia Civil de São Paulo. A passagem pela corporação ocorreu na década de 1960 e antecedeu em anos a construção de uma carreira artística que incluiu teatro, cinema e papéis marcantes na TV.
Nascido em 24 de maio de 1944, em Santa Rita do Passa Quatro, no interior paulista, José Pereira de Abreu Jr. é filho de um delegado de polícia. Em 1964, aos 20 anos, ingressou na Polícia Civil e foi lotado no 1º Distrito Policial, no Pátio do Colégio, na capital.
Na corporação, exerceu primeiro a função de escrivão e depois passou a atuar como investigador. Durante esse período, trabalhou também no setor de entorpecentes do Departamento de Investigações (DI). A experiência durou cerca de quatro anos.
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Em 1968, deixou a polícia em meio a um momento de forte tensão política no país. Naquele mesmo período, cursava Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), instituição então envolvida nos movimentos estudantis contrários à ditadura militar.
Foi no ambiente universitário que o teatro começou a ganhar espaço em sua vida. Ele se aproximou do TUCA — Teatro da Universidade Católica — inicialmente como produtor. Sua entrada nos palcos como ator ocorreu de forma quase casual: enquanto trabalhava na produção de uma peça, gravou músicas para a trilha sonora. O diretor Silnei Siqueira ouviu as gravações e o convidou para atuar.
Uma das primeiras experiências foi no espetáculo experimental O&A, peça sem texto convencional em que os diálogos eram construídos a partir das vogais "o" e "a". O trabalho chamou a atenção da Censura Federal, e integrantes da produção chegaram a ser presos antes de apresentações.
Em 13 de outubro de 1968, José de Abreu estava entre os aproximadamente 700 estudantes detidos durante o Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado em Ibiúna, no interior de São Paulo. Permaneceu preso por cerca de três meses.
Após a soltura, deixou São Paulo em busca de um ambiente com menos restrições à atividade artística. Em 1969, chegou ao Rio Grande do Sul, onde conheceu Nara Keiserman, sua primeira esposa. Os dois partiram juntos para a Europa.
No exterior, José de Abreu passou por Paris e Londres, onde trabalhou lavando pratos, e depois seguiu para Amsterdã. Na Holanda, chegou a dirigir um ônibus voltado ao turismo alternativo, conhecido como The Magic Bus. Posteriormente, o casal foi para a Grécia, onde viveu uma fase marcada pelo interesse em filosofia hindu e meditação.
Na ilha de Andros, permaneceu por seis meses, aprendeu grego e trabalhou como ajudante de pedreiro. O casal chegou a comprar uma Kombi com a intenção de viajar até a Índia, mas acabou ficando na Grécia.
O retorno ao Brasil ocorreu em 1974, quando José de Abreu e Nara foram para Pelotas, no Rio Grande do Sul. A proximidade da cidade com a fronteira uruguaia era considerada estratégica diante de eventuais novos problemas com o regime militar.
No estado, o ator produziu shows musicais e espetáculos infantis, além de participar de montagens teatrais. Trabalhou com artistas como Gilberto Gil, Dominguinhos, Toquinho, Vinicius de Moraes, Rita Lee e Jorge Mautner. Com Nara Leão, participou da primeira montagem gaúcha de Os Saltimbancos, de Chico Buarque.
A estreia no cinema veio com A Intrusa, dirigido pelo argentino Hugo Christensen. O papel rendeu a José de Abreu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Gramado de 1980.
A projeção nacional, no entanto, viria pela televisão. Em 2012, o ator interpretou Nilo em Avenida Brasil, personagem que ficou conhecido pela risada estridente e pelo sorriso amarelado. Segundo o próprio ator, o recurso foi criado para valorizar o trabalho de maquiagem realizado durante horas no camarim.