Agência com apuração local · publicado originalmente por UOL
Crise Climática no Brasil
Nordeste em risco: como seca e desertificação ameaçam a Caatinga e milhões de brasileiros
Estudos do Inpe e debates na COP17 alertam: até 50% da Caatinga pode virar semideserto com o aquecimento global. Entenda os riscos para o Nordeste brasileiro.
Foto: Reprodução/UOL
UOL
Jornalista
A discussão global sobre os impactos da seca, aridez e desertificação ganhou destaque na COP17 da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), realizada entre os dias 17 e 28 de agosto de 2026, em Ulaanbaatar, na Mongólia. O encontro internacional enfatizou a necessidade de diferenciar os conceitos climáticos para aprimorar o enfrentamento à degradação do solo, pauta que atinge diretamente o território brasileiro.
No cenário nacional, os impactos ambientais atingem principalmente o Nordeste, embora localidades do Centro-Oeste e do Sudeste também enfrentem períodos de estiagem prolongada. De acordo com informações técnicas apresentadas, a aridez é caracterizada como uma condição climática natural, enquanto a seca representa uma falta temporária de água e a desertificação consiste na degradação persistente da terra em áreas secas decorrente de fatores climáticos somados à atividade humana.
Cenário climático e impactos na Caatinga
Levantamentos conduzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em conjunto com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) identificaram, de forma inédita na classificação do país, uma área de clima árido localizada no norte da Bahia e de Pernambuco. Esse quadro foi associado à estiagem prolongada registrada entre 2012 e 2018.
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Projeções científicas voltadas a cenários de elevado aquecimento global indicam que até 50% da região semiárida da Caatinga pode se transformar em semideserto. Atualmente, dados citados pelo Instituto Nacional do Semiárido (Insa) apontam que 23,1% do bioma Caatinga — equivalente a cerca de 200 mil quilômetros quadrados — apresenta índices de degradação classificados entre críticos e severos.
Historicamente, a vulnerabilidade do semiárido nordestino é influenciada por dinâmicas oceânicas e atmosféricas, a exemplo do El Niño e do aquecimento das águas superficiais do Atlântico Tropical Norte. Durante o período imperial, entre 1877 e 1879, a estiagem provocada por um episódio severo do El Niño causou a morte de 400 mil a 500 mil pessoas no sertão brasileiro, além de perdas agropecuárias e esvaziamento populacional na região.
Diretrizes da conferência internacional
Durante a COP17, os debates científicos direcionaram o foco para a construção de resiliência preventiva e restauração ecológica como métodos de segurança hídrica e alimentar. As diretrizes discutidas abrangem medidas como:
Sistemas de monitoramento e alerta precoce contra estiagens;
Planejamento hídrico e adaptação das práticas na agricultura;
Recuperação e manejo de solos e áreas degradadas;
Ações integradas de educação ambiental;
Políticas públicas estruturadas e mecanismos de financiamento.
A abordagem visa estruturar sistemas socioecológicos preparados para suportar temperaturas mais elevadas e secas recorrentes, assegurando a conservação da biodiversidade, dos recursos hídricos e a manutenção das atividades produtivas.