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Cármen Lúcia se diz envergonhada e pede desculpas ao povo por crise no STF: “Geramos intranquilidade”
A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou nesta terça-feira (15) sentir-se “um pouco até envergonhada” diante da crise interna da Corte e disse que o tribunal, em vez de…
Cauê Rigamonti
Jornalista
A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou nesta terça-feira (15) sentir-se “um pouco até envergonhada” diante da crise interna da Corte e disse que o tribunal, em vez de transmitir tranquilidade à sociedade, acabou “gerando intranquilidade”.
A manifestação ocorreu durante a sessão extraordinária que discute questões processuais relacionadas à possível abertura de investigação sobre a conduta do ministro Alexandre de Moraes.
Cármen Lúcia iniciou sua fala explicando que não costuma antecipar votos quando há pedido de vista, mas que se manifestaria por se tratar de uma questão de ordem levantada durante a sessão. Em seguida, relatou o sentimento com que acompanhava o julgamento.
“Eu estou nesta sessão, como talvez muitos dos meus colegas, em estado de profunda consternação e tristeza”, afirmou.
A ministra contou que colegas haviam percebido seu abatimento ao longo do dia e que respondeu estar triste não apenas pelo tema que levou o Supremo a realizar a sessão, mas pelas consequências institucionais da crise.
Segundo Cármen Lúcia, o Supremo, responsável constitucionalmente pela guarda da Constituição, acabou provocando um “mal-estar cívico” entre os brasileiros nos últimos dias.
“Eu me sinto – e estou falando apenas por mim, quem fala pelo Supremo é Vossa Excelência, presidente – um pouco até envergonhada, presidente, de um momento em que o Brasil está a menos de 20 dias da eleição e estão todos voltados a questões do Supremo”, disse.
A ministra reconheceu que parte das controvérsias discutidas pelo tribunal é de natureza processual, mas ressaltou que há também “questões graves” envolvidas. Para ela, o Supremo não conseguiu transmitir à sociedade o rigor e a serenidade esperados da instituição.
“Nós não garantimos o rigor e a serenidade que, no meu papel de cidadã e juíza, eu deveria ter talvez ajudado mais a promover”, afirmou. “Peço desculpas ao povo brasileiro; talvez esperavam uma postura diferente de mim.”
‘Nós geramos intranquilidade’
Cármen Lúcia disse que a atuação do tribunal deveria contribuir para pacificar conflitos e transmitir segurança institucional, mas avaliou que o resultado dos acontecimentos recentes foi o oposto.
“Podemos judicializar isso para tranquilizar. No final, nós geramos intranquilidade. Acho, essa é a minha percepção”, afirmou.
A ministra acrescentou que os episódios recentes também atingiram a relação da sociedade com o próprio sistema de Justiça.
“Acho que nós mesmos, neste Supremo, inebriamos o sentimento de Justiça da cidadania brasileira nesses últimos dias”, declarou.
Cármen Lúcia também mencionou as relações pessoais construídas entre os integrantes do tribunal e citou especificamente André Mendonça, ressaltando que mantém vínculos de amizade com colegas da Corte apesar das divergências que vieram à tona durante a crise.
A manifestação ocorreu em meio a uma sessão marcada por discussões entre ministros sobre rito processual, relatoria, tratamento dado aos procedimentos envolvendo integrantes do STF e a sequência de análise dos casos relacionados a Moraes e Mendonça.