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Por que as discussões sobre a desdolarização são mais conversa e menos ação?

Quando os líderes do BRICS se reuniram no fim de semana, eles falaram sobre o poder econômico do Sul Global e sobre a necessidade de ampliar o comércio em moedas locais, sinalizando um movimento…

Por que as discussões sobre a desdolarização são mais conversa e menos ação?
Foto: Reprodução/Times Brasil

Nicholas Siqueira

Jornalista

Quando os líderes do BRICS se reuniram no fim de semana, eles falaram sobre o poder econômico do Sul Global e sobre a necessidade de ampliar o comércio em moedas locais, sinalizando um movimento para reduzir a dependência do dólar.

O bloco busca diminuir sua dependência do dólar devido às tensões geopolíticas, às sanções econômicas e à política tarifária dos Estados Unidos, segundo especialistas. No entanto, eles levantaram dúvidas sobre a capacidade do BRICS de se afastar do dólar.

Há anos, o termo “desdolarização” surge ocasionalmente, especialmente quando a confiança nos Estados Unidos é abalada.

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A ideia é simples: atualmente, os países realizam a maior parte de suas transações em dólares americanos, sustentando grande parte do sistema financeiro mundial. Por exemplo, duas das commodities mais negociadas do mundo, petróleo e ouro, são denominadas em dólar.

Dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS) mostram que o dólar americano representava 89% do mercado cambial, 1 ponto percentual acima do registrado um ano antes, enquanto o euro e o iene correspondiam a 29% e 17%, respectivamente, em abril.

O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, afirmou em seu discurso na Cúpula do BRICS que o bloco deveria “avançar com um uso maior das moedas locais, sistemas de pagamentos transfronteiriços mais robustos e uma interconectividade financeira mais profunda”.

Economias ricas em energia, como Irã e Rússia, dois integrantes do BRICS cuja capacidade de negociar em dólares foi prejudicada pelas sanções americanas, também pediram ao bloco que desenvolva infraestrutura de pagamentos, liquidação e custódia dentro do BRICS.

O atual sistema financeiro é “vulnerável a choques políticos devido à sua concentração em um número limitado de moedas”, afirmou o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, sugerindo a necessidade de diversificação para longe do dólar.

No entanto, a falta de integração financeira e macroeconômica, os amplos desequilíbrios comerciais e a profunda desconfiança entre países-membros importantes, como China e Índia, são os principais obstáculos que o BRICS precisa superar antes de se libertar da hegemonia do dólar, segundo especialistas.

O BRICS não possui a infraestrutura institucional, financeira e macroeconômica unificada necessária para substituir a “liquidez e confiança inerentes” ao dólar no mundo, afirmou Jayant Krishna, pesquisador sênior do Center for Strategic and International Studies (CSIS), à CNBC.

Primeiros passos

A menção à desdolarização ocorre com mais frequência entre os países do BRICS. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já ameaçou o bloco com tarifas caso seus integrantes se afastassem do dólar.

“Exigimos um compromisso desses países de que eles não criarão uma nova moeda do BRICS nem apoiarão qualquer outra moeda para substituir o poderoso dólar americano. Caso contrário, enfrentarão tarifas de 100% e devem esperar se despedir das vendas para a maravilhosa economia dos Estados Unidos”, escreveu Trump.

Juntos, os 10 países-membros do BRICS responderam por 27% da produção mundial, 24% das exportações de mercadorias e 22% dos fluxos de investimento estrangeiro direto em 2024, segundo um relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), divulgado em março.

“Isso traz novas oportunidades, caminhos para a cooperação e um enorme potencial”, afirmou o relatório, mas destacou que, atualmente, a escala do comércio intrabloco do BRICS representava apenas cerca de 5% do comércio mundial em 2024.

Embora os países-membros tenham falado sobre a ampliação do comércio em moedas nacionais, poucos passos concretos foram observados nessa direção. A declaração do BRICS de 2026 não mencionou uma moeda comum nem apresentou detalhes mais concretos sobre liquidações comerciais e investimentos utilizando moedas locais do BRICS. Em vez disso, a Força-Tarefa de Pagamentos do BRICS foi encarregada de trabalhar na facilitação de “soluções práticas para pagamentos transfronteiriços”.

“Rússia e China agora liquidam quase 90% de seu comércio em rublos e yuans”, mas essa mudança foi acelerada pelas sanções americanas após 2022, e não por uma política coordenada do BRICS, afirmou Reema Bhattacharya, chefe de pesquisa para a Ásia da Verisk Maplecroft, à CNBC.

A maioria das moedas do BRICS não possui mercados profundos e líquidos fora de suas economias de origem, o que desestimula os exportadores a aceitá-las e mantém a denominação em dólares como o caminho de menor resistência para as commodities globais, explicou ela.

Especialistas afirmaram que os interesses divergentes entre os países do BRICS também dificultam a desdolarização.

Competição entre China e Índia

“A rivalidade entre Índia e China, que eu classificaria como o maior freio individual à coesão dentro do bloco”, disse Bhattacharya.

Pequim e Nova Délhi querem maior autonomia estratégica em relação a Washington, mas continuam sendo concorrentes diretos em manufatura, tecnologia, investimentos e influência regional.

Essa tensão, somada ao crescente desequilíbrio comercial entre as duas principais economias do BRICS, dificulta a manutenção da confiança necessária para uma integração financeira mais profunda.

A China é um dos maiores parceiros comerciais da Índia, com o comércio total atingindo o recorde de US$ 151,1 bilhões no ano encerrado em março de 2026. Mas o déficit da Índia com Pequim também subiu para o recorde de US$ 112,16 bilhões, ante US$ 99,21 bilhões.

Enquanto isso, o comércio de bens e serviços da Índia com os Estados Unidos foi de cerca de US$ 239 bilhões em 2025, com superávit comercial de bens de US$ 58,4 bilhões e superávit de serviços de US$ 4,7 bilhões. Portanto, uma mudança para longe do dólar não favorece a Índia, que mantém um grande déficit comercial com a China e outros países.

“Os membros do BRICS também têm prioridades muito diferentes”, disse Krishna Bhimavarapu, economista para a região Ásia-Pacífico da State Street Investment Management, à CNBC.

A Rússia e o Irã querem reduzir sua exposição ao dólar devido ao risco de sanções; a China quer ampliar o uso internacional do renminbi, mas mantém controles de capital; enquanto a Índia apoia uma maior utilização da rúpia, afirmou.

“Em última análise, nenhuma alternativa liderada pelo BRICS atualmente se equipara à liquidez e à profundidade de mercado, à credibilidade e à aceitação global do dólar”, acrescentou.

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