Agência com apuração local · publicado originalmente por Revista Fórum
Investigação e Corrupção
Prefeito de São Roque ligado a R$ 93 mi no Master assinou contrato sem licitação com instituto de Mendonça
Investigação revela que consórcio presidido por Guto Issa firmou contrato de R$ 1,2 mi com Instituto Iter, de André Mendonça, após aplicações polêmicas no Banco Master.
Foto: Reprodução/Revista Fórum
Revista Fórum
Jornalista
Uma investigação do Fórum Investiga identificou uma conexão entre os R$ 93 milhões aplicados pelo fundo de previdência de São Roque no Banco Master, de Daniel Vorcaro, e um contrato de R$ 1.228.505,55 firmado, sem licitação, com o Instituto Iter — entidade criada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça — pelo consórcio de municípios presidido pelo prefeito são-roquense Guto Issa (PSD).
O São Roque Prev, regime próprio de previdência do município, realizou sete aplicações em letras financeiras do Banco Master ao longo de 2024, totalizando cerca de R$ 93 milhões. O valor representava aproximadamente 18,5% dos ativos administrados pelo fundo, segundo documentos divulgados pela Câmara Municipal de São Roque.
As operações foram conduzidas durante a gestão de Vanderlei Massarioli à frente do São Roque Prev. Massarioli havia sido nomeado para o cargo em março de 2022 pela administração do prefeito Guto Issa. A Câmara Municipal instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar as aplicações.
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Em 27 de julho, o relatório final da CPI concluiu que houve "fragilidades nos mecanismos de governança, marcada pela inefetividade de conselhos e reincidência de irregularidades já apontadas pelos órgãos de controle da São Roque Prev" e atribuiu "falhas graves de gestão" a Massarioli, que teriam causado prejuízos ao município. O documento foi encaminhado ao Ministério Público estadual e federal.
O São Roque Prev informou que "adquiriu letras financeiras do banco em 2024 seguindo os ritos legais e técnicos" e que acompanha "os desdobramentos das operações envolvendo o Banco Master".
Em março de 2025, um ano após o início das aplicações, Daniel Vorcaro se reuniu com André Mendonça na sede do Instituto Iter, em São Paulo. A existência do encontro foi revelada por mensagens e documentos apreendidos pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre o Banco Master. A reunião ocorreu no dia 14 de março e durou cerca de duas horas. A defesa de Mendonça confirmou o encontro e afirmou que foram discutidos apenas temas relacionados a processos no STF, negando qualquer irregularidade.
Não há, até o momento, comprovação pública de que o encontro tenha resultado em qualquer favorecimento judicial a Vorcaro. As alegações sobre eventual influência são objeto de investigação e foram negadas pelos envolvidos.
Quatro meses depois da reunião, em 24 de julho de 2025, o CIOESTE — consórcio que reúne municípios da região Oeste da Grande São Paulo e que é presidido por Guto Issa desde 2025 — assinou contrato com o Instituto Iter para a realização de cursos e palestras em Direito e Administração Pública no âmbito da Escola de Governo do consórcio. O instrumento foi celebrado sem prévia licitação e tem vigência de um ano.
Em 11 de agosto de 2025, a parceria foi apresentada publicamente em evento realizado na sede do CIOESTE, em Alphaville, no município de Barueri. André Mendonça esteve presente e ministrou a palestra "Controle judicial do ato administrativo". Também participaram Victor Godoy, presidente do Iter, Guto Issa e o ministro do STJ Mauro Campbell. O próprio CIOESTE descreveu o Iter como "parceiro" estratégico da iniciativa.
O contrato de R$ 1,23 milhão figura entre os maiores negócios identificados pelo Fórum Investiga no levantamento sobre a atuação do Instituto Iter junto ao poder público. A apuração mapeou 55 contratos e instrumentos públicos, que somam ao menos R$ 10,85 milhões. Desse total, 54 foram firmados sem prévia licitação, o equivalente a 98,2% dos registros analisados.
Diante da repercussão das reportagens, Mendonça deixou a sociedade do Instituto Iter. O instituto havia sido criado pelo ministro em 2023, antes de sua posse no STF.
O Instituto Iter afirmou que o contrato com o CIOESTE não teve "qualquer participação, indicação ou ingerência do Ministro André Mendonça" e que a negociação "não guarda nenhuma relação com Daniel Vorcaro, com o Banco Master ou com quaisquer fatos a eles atribuídos".
A reportagem entrou em contato com André Mendonça e Guto Issa, que não retornaram até o fechamento da publicação. O espaço segue aberto para manifestação.