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Revista São Roque
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Agência com apuração local · publicado originalmente por CNN Brasil

Invasão Marinha

Tatuador vegano vira caçador de peixe-leão para salvar recifes da Flórida

Nate Sorensen acumulou 2,5 milhões de seguidores ao caçar peixes-leão com arpão, espécie invasora que ameaça recifes de coral e devasta ecossistemas marinhos.

Tatuador vegano vira caçador de peixe-leão para salvar recifes da Flórida
Foto: Reprodução/CNN Brasil

CNN Brasil

Jornalista

Um tatuador vegano da Flórida se tornou criador de conteúdo nas redes sociais com um objetivo incomum: eliminar o peixe-leão, espécie invasora que ameaça os recifes de coral do estado. Nate Sorensen e sua organização sem fins lucrativos, a Lionfish Extermination Corp., acumularam 2,5 milhões de seguidores em diversas plataformas ao compartilhar vídeos de mergulhos em que caça o animal com arpão.

O peixe-leão vermelho foi detectado pela primeira vez na Flórida na década de 1980, possivelmente após ser solto de um aquário. Desde então, a população explodiu nos últimos 15 anos, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). A espécie pode se reproduzir a cada quatro dias, e as fêmeas liberam até 2 milhões de ovos por ano.

Originário do Pacífico Sul e do Oceano Índico, o peixe-leão não encontra predadores naturais nem presas experientes nos recifes da Flórida, do Caribe e ao longo da costa leste americana. O resultado é uma devastação nas cadeias alimentares locais: o animal se alimenta de mais de 70 espécies de pequenos peixes e invertebrados.

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"Depois de remover tudo isso, o que sobra?", questionou Sorensen. "O recife acaba entrando em colapso, e o colapso é bastante drástico."

Sorensen estima que um peixe-leão consuma cerca de 10 peixes por dia. Ele relatou ter aberto um exemplar e encontrado 75 peixes em seu interior. Em populações densas, a espécie pode consumir até 460 mil presas por acre ao ano e reduzir as populações de presas em até 90% em algumas áreas.

"Nós os abrimos e encontramos pedaços grossos e pesados de gordura em volta dos órgãos", disse ele. "Eles estão quase passando mal de tanto que comem."

A caça começou como um hobby em Boynton Beach, cidade próxima à sua residência. Durante o isolamento da Covid-19, em 2020, Sorensen adquiriu um barco batizado de Lion Slayer e um scooter subaquático para alcançar populações mais remotas e cobrir áreas maiores. Junto com sua esposa, Rachel Taub, instrutora de mergulho, e o parceiro de mergulho Alex Borsutzky, ele estruturou a Lionfish Extermination Corp., que arrecada doações, vende produtos e fornece peixes-leão para restaurantes.

Em determinado momento, Sorensen afirmou que ele e Borsutzky chegaram a pescar 45 quilos de peixe-leão por dia. A área de atuação foi expandida ao longo de um trecho do Atlântico, de Júpiter até Key Biscayne.

Os vídeos começaram a ser publicados em 2018, mas o alcance só cresceu quando Sorensen passou a incluir narração explicando suas ações. Ele ingressou no TikTok em 2023 e depois expandiu para Facebook e YouTube. As receitas geradas pelas plataformas são reinvestidas na organização.

"Até mesmo as pessoas mais sensíveis, que não querem ver um animal sendo retirado e atingido por um arpão, gostam da ideia, porque sabem que estamos protegendo todos esses peixes", afirmou Sorensen.

A atividade, no entanto, envolve riscos. O peixe-leão possui 18 espinhos cobertos de veneno que, embora raramente fatais para adultos, provocam dor intensa e, em casos raros, paralisia. Sorensen já foi picado mais de uma vez. A pior experiência foi uma injeção no dedo mindinho.

"Foi um tormento. É o inferno, literalmente, por quatro horas. A sensação é como se tivessem esmagado seu dedo com um martelo", descreveu.

Apesar dos riscos, ele segue mergulhando em jornadas de até 16 horas. "A única coisa que me mantém firme é o fato de que eles estão matando esses peixes desnecessariamente, e eles precisam de um predador", disse. "E como não há predador, nós temos que ser."

A eficácia da caça é debatida por especialistas. A NOAA prevê que a população de peixes-leão continuará crescendo. Ainda assim, um estudo realizado há mais de uma década concluiu que a erradicação completa não é necessária para a recuperação das espécies nativas — apenas uma redução significativa na densidade populacional. Outro estudo, realizado no Caribe Ocidental, estimou que um único mergulhador poderia reduzir a população em 90% em uma área de mil metros quadrados em 2,5 horas de mergulho.

"Há algumas evidências de que o abate seletivo reduz a densidade local de peixes-leão nos recifes", disse Alastair Harborne, professor associado da Universidade Internacional da Flórida e especialista em peixes de recifes de coral.

Harborne, que se mudou para a Flórida em 2016, observou uma possível redução do peixe-leão em águas rasas desde sua chegada. Ele levantou a hipótese de que isso pode ser resultado da caça, mas também de um possível equilíbrio natural da população com os recifes locais após a explosão da década de 2000.

O estado da Flórida incentiva a prática: não há limite diário de captura, a temporada é válida o ano todo e mergulhadores recreativos não precisam de licença. A Comissão de Conservação de Peixes e Vida Selvagem da Flórida (FWC) estima que mais de 1 milhão de peixes-leão foram capturados desde 2010 por amadores e profissionais.

"A captura do peixe-leão é atualmente a medida mais eficaz que temos para reduzir sua população", informou a FWC em comunicado à CNN.

Para estimular a participação, a comissão organiza torneios e mantém o Desafio do Peixe-Leão, competição de verão que existe há uma década. No ano passado, mais de 500 participantes removeram mais de 30 mil peixes-leão entre maio e setembro. Os vencedores da edição de 2026 serão anunciados ainda este mês.

Além da caça, Sorensen compartilha conteúdo educativo sobre leis marítimas e registra a limpeza de detritos deixados por atividades de pesca. Os vídeos também mostram a fauna dos recifes da Flórida, como moreias, raias-águia-pintadas, tartarugas e tubarões-lixa. Um dos personagens recorrentes é Wilbur, uma garoupa-gigante com quem Borsutzky fez amizade em 2013. O peixe se aproxima dos mergulhadores e permite ser acariciado.

"Seus números estão drasticamente reduzidos", disse Sorensen sobre a espécie. "Mas, assim como os tubarões, eles são extremamente importantes para o meio ambiente. Sem esses grandes predadores, a saúde do recife piora drasticamente."

Com informações de CNN Brasil.

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