Agência com apuração local · publicado originalmente por UOL
Crise Climática Global
Calor extremo mata 500 mil por ano: quem são as vítimas invisíveis da crise climática?
Pesquisadora do Inpe revela que o calor extremo superou enchentes e terremotos em mortes no mundo; no Brasil, mais de 10 mil vidas foram perdidas em um ano.
Foto: Reprodução/UOL
UOL
Jornalista
O calor extremo foi responsável por cerca de 500 mil mortes no mundo no último ano, superando em número de fatalidades outros desastres naturais amplamente noticiados, como enchentes, deslizamentos e terremotos. No Brasil, mais de 10 mil pessoas morreram em decorrência das altas temperaturas no mesmo período. Os dados são apresentados em artigo assinado por Gabriela Couto, pesquisadora especialista em gênero, desastres e mudanças climáticas, com doutorado pelo Inpe.
Ao contrário de enxurradas ou furacões, o calor extremo não produz imagens dramáticas. A ameaça é silenciosa e seus efeitos se acumulam de forma invisível, afetando principalmente idosos, bebês, crianças e trabalhadores expostos ao sol, como os do campo e da construção civil.
No Norte e no Nordeste do Brasil, o aumento anômalo de temperaturas registrado em 2023, 2024 e novamente em 2026 tem provocado incêndios florestais, secas severas e isolamento de comunidades indígenas e ribeirinhas. O acesso à água e aos alimentos ficou comprometido nessas regiões.
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Nos grandes centros urbanos do Centro-Oeste, Sudeste e Sul, episódios de calor extremo chegam a elevar a temperatura em até 10°C em um único dia. Favelas e periferias, com alta densidade populacional e pouca arborização, concentram os piores impactos. De acordo com o Censo Demográfico 2022, do IBGE, mais de 16,3 milhões de pessoas vivem nesses núcleos urbanos vulneráveis.
Escolas também estão no centro do problema. Pesquisa do Instituto Alana e do MapBiomas, publicada em novembro de 2024, aponta que milhares de crianças e jovens estudam em unidades de educação infantil e ensino fundamental localizadas dentro de ilhas de calor, o que prejudica o aprendizado e a saúde de alunos, professores e funcionários.
Para evitar danos à saúde, municípios têm suspendido aulas em dias de calor excessivo. A medida, porém, levanta uma questão social: quem fica responsável pelas crianças em casa durante um dia útil de trabalho?
A situação tende a se agravar. Neste ano de 2026, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) anunciou o chamado "Super El Niño" como o fenômeno de calor extremo mais intenso já registrado na história da climatologia. Segundo a pesquisadora, a ciência climática aponta há mais de 20 anos que o aquecimento global de origem humana aumenta a probabilidade de o El Niño se tornar forte ou muito forte.
Entre as medidas de redução de risco já conhecidas estão o reflorestamento urbano, os telhados verdes e o acompanhamento comunitário de moradores vulneráveis. Em escala global, a pesquisadora cita a transição para energias eólica e solar, o desmatamento zero e o reflorestamento massivo como caminhos de longo prazo.
O artigo também aponta que a crise climática aprofunda desigualdades de gênero e raça. Relatório da ONU Mulheres de 2026 indica que as mudanças climáticas intensificam a carga do trabalho de cuidado — historicamente não remunerado — que recai sobre mulheres e meninas, tanto no âmbito doméstico quanto no comunitário, incluindo o cuidado de crianças, idosos e doentes, além da gestão de recursos como água, alimentos e energia.
Cerca de 500 mil mortes por calor extremo no mundo no último ano
Mais de 10 mil mortes por calor extremo no Brasil no mesmo período
Mais de 16,3 milhões de pessoas vivem em núcleos urbanos vulneráveis no país (IBGE, 2022)
"Super El Niño" de 2026 é considerado o mais intenso já registrado pela OMM
O artigo é de autoria de Gabriela Couto, pesquisadora com doutorado em Ciência do Sistema Terrestre pelo Inpe, especializada em gênero, desastres e mudanças climáticas.