Agência com apuração local · publicado originalmente por CNN Brasil
Vida em Extremos
Ameba-do-fogo sobrevive a 80ºC e redefine os limites da vida na Terra, segundo a Nasa
Organismo eucarionte descoberto na Califórnia se reproduz acima de 64°C e resiste até 80°C, ampliando fronteiras da astrobiologia e busca por vida em outros planetas.
Foto: Reprodução/CNN Brasil
CNN Brasil
Jornalista
A Nasa divulgou nesta quarta-feira (23) uma descoberta que amplia os limites conhecidos da vida na Terra: a ameba-do-fogo Incendiamoeba cascadensis conseguiu se reproduzir em temperaturas superiores a 64°C, superando o limite de 60°C registrado anteriormente pela ciência.
O organismo foi encontrado nas águas aquecidas do Parque Nacional Vulcânico Lassen, na Califórnia, nos Estados Unidos. A agência espacial americana financia parte da pesquisa sobre microrganismos que originou o estudo.
A I. cascadensis é um organismo eucarionte — ou seja, suas células possuem núcleo organizado, separado do citoplasma por uma membrana nuclear. Essa estrutura já a tornava naturalmente mais resistente ao calor, mas os novos resultados mostram que ela vai além do que os cientistas esperavam.
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Beyl Rappaport, estudante de pós-graduação da Universidade de Syracuse e autora principal do estudo, explicou de que forma o organismo consegue se manter estável em temperaturas tão elevadas.
"Conseguimos descobrir muitas estratégias que poderiam ajudar a I. cascadensis a sobreviver em altas temperaturas, e algumas dessas estratégias poderiam ser usadas por termófilos em toda a vida. Por exemplo, algumas proteínas de I. cascadensis possuem uma alta carga positiva na superfície que pode ajudá-las a se manterem estáveis. Essas cargas proteicas são semelhantes às encontradas em bactérias e arqueias termófilas", afirmou Rappaport.
Organismos termófilos são aqueles capazes de crescer e se reproduzir em ambientes de alta temperatura. Eles podem ser tanto procariontes, como bactérias e arqueias, quanto eucariontes, como é o caso da ameba-do-fogo.
A resistência da espécie chama atenção porque o calor extremo tende a degradar proteínas e outras biomoléculas essenciais ao funcionamento celular, além de comprometer as membranas que envolvem células e organelas.
Rappaport também apontou que estudos sobre eucariotos podem ter sido limitados por suposições sobre a estabilidade dessas membranas. "Esperamos que a descoberta de I. cascadensis incentive outros a continuarem buscando eucariotos de alta temperatura", disse a pesquisadora.
A descoberta tem implicações diretas para a astrobiologia. Há décadas, cientistas estudam os limites de sobrevivência dos organismos na Terra para avaliar a possibilidade de vida em ambientes extremos de outros planetas, como Marte.
Alison Olcott, cientista do programa de Exobiologia na sede da Nasa em Washington, destacou a relevância do achado. "Encontrar eucariotos sobrevivendo em ambientes de alta temperatura não só amplia nossa compreensão de onde a vida poderia ser encontrada, mas também de quão complexa essa vida poderia ser", afirmou.
Segundo a Nasa, a capacidade de reprodução da I. cascadensis nessas condições expande o entendimento científico sobre até onde a vida pode existir no planeta.