Agência com apuração local · publicado originalmente por Times Brasil
Privacidade e Tecnologia
Flórida processa Netflix por coleta ilegal de dados e publicidade direcionada a crianças
Procurador-geral da Flórida acusa Netflix de monetizar dados de usuários e usar design manipulativo para manter assinantes na plataforma, incluindo crianças.
Foto: Reprodução/Times Brasil
Joyce Canelle
Jornalista
O estado da Flórida entrou com uma ação judicial contra a Netflix em um tribunal estadual na última quarta-feira, acusando a empresa de coletar e monetizar dados de usuários de forma indevida e de adotar práticas que manteriam os assinantes por mais tempo na plataforma.
O processo foi movido pelo procurador-geral do estado, James Uthmeier, com base nas leis estaduais sobre práticas comerciais desleais e enganosas. Entre os pedidos estão uma indenização em valor não definido e uma ordem judicial para que a Netflix interrompa a coleta e a monetização de dados e modifique elementos da interface do serviço.
Dados coletados em larga escala
A denúncia aponta uma contradição entre o posicionamento público da Netflix e suas práticas internas. A empresa teria afirmado, inclusive em carta aos acionistas de 2019, que a ausência de publicidade era parte central de sua proposta de marca e que não integrava dados com empresas como Google, Amazon e Meta.
Publicidade
Ao mesmo tempo, segundo o processo, a plataforma registrava cerca de 550 bilhões de eventos por dia já em 2016, reunindo informações detalhadas sobre o comportamento dos assinantes, como pesquisas realizadas, pausas, repetições de conteúdo, navegação, rolagem e dados dos dispositivos utilizados.
Com o lançamento do negócio de publicidade da Netflix em 2022, essa infraestrutura teria passado a ser monetizada. A ação afirma que anunciantes podem cruzar seus próprios dados com os perfis da plataforma para melhorar a segmentação de público, com acesso a informações como escolaridade, estado civil, renda familiar e composição familiar dos assinantes.
Acusações envolvem perfis infantis
O processo também questiona o design da plataforma. A Flórida sustenta que recursos como a reprodução automática teriam sido desenvolvidos para prolongar o tempo de uso e, consequentemente, ampliar o volume de dados coletados.
Outro ponto levantado é o tratamento dado a perfis infantis. O estado acusa a Netflix de ter declarado que não realizava publicidade comportamental direcionada a crianças sem revelar, segundo a denúncia, a extensão da coleta e análise dos hábitos de visualização desse público.
Uthmeier afirmou que a empresa teria se apresentado às famílias como uma alternativa à vigilância das grandes empresas de tecnologia, mas acabou coletando dados detalhados de crianças e famílias para desenvolver sua operação publicitária.
Netflix nega irregularidades
Em comunicado, um porta-voz da Netflix afirmou que a companhia leva a privacidade dos membros a sério e cumpre as leis de privacidade e proteção de dados nos locais onde atua.
A ação contra a Netflix não é a primeira iniciativa do procurador-geral da Flórida contra empresas de tecnologia. Neste ano, Uthmeier também processou o TikTok e a OpenAI por questões ligadas à segurança das plataformas e optou por não aderir a um acordo multiestadual de US$ 17 bilhões com a Meta, voltado à proteção de menores.