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Revista São Roque
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Agência com apuração local · publicado originalmente por campograndenews.com.br

Bolsa e Desigualdade

Como R$ 700 por mês mudou a vida de uma universitária e expôs a desigualdade na educação

Duas amigas cursam Licenciatura em Matemática na mesma universidade, mas vivem realidades opostas: uma recebe bolsa do Pé-de-Meia e estuda com tranquilidade; a outra acumula dois empregos para sobreviver.

Como R$ 700 por mês mudou a vida de uma universitária e expôs a desigualdade na educação
Foto: Reprodução/campograndenews.com.br

campograndenews.com.br

Jornalista

Duas amigas de 18 anos cursam Licenciatura em Matemática na mesma universidade, na mesma cidade, mas vivem rotinas completamente distintas: enquanto uma concilia os estudos com dois empregos, a outra pôde deixar o trabalho após começar a receber uma bolsa do governo federal.

Mariana Cavassani dos Santos e Heloísa Silva de Souza estudam na UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), em Cassilândia. As duas moram juntas numa casa cedida pelo avô de Heloísa.

Mariana trabalha no comércio durante o dia, frequenta as aulas à noite e ainda cumpre expediente numa lanchonete nos fins de semana, das 18h à 0h30. Ela tentou se inscrever no Pé-de-Meia Licenciaturas, programa federal de bolsas para estudantes de licenciatura, mas não atingiu a pontuação mínima exigida no Enem para ter direito ao benefício. Também não foi aprovada nas bolsas oferecidas pela própria universidade.

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"Não posso deixar os meus trabalhos porque meus pais não têm condições de me manter, justamente porque faltou oportunidades para eles. Ano que vem vou ficar mais atenta aos prazos, apesar de ser muito ocupada, e me inscrever em outros editais", afirmou Mariana.

A estudante relatou que chegou a chorar na semana passada por não ter tempo suficiente para entregar uma avaliação. Ela acredita que acumula um déficit de aprendizado em Matemática por trabalhar desde os 14 anos e ter cursado o ensino básico no período noturno.

"Eu acho que a maioria dos estudantes brasileiros trabalha e enfrenta essa realidade, faz parte", disse.

Heloísa, por sua vez, trabalhava como secretária em meio período durante o ensino médio para ajudar a mãe com as despesas da casa. Neste ano, ela deixou o emprego após começar a receber R$ 700 mensais pelo Pé-de-Meia Licenciaturas. O valor a ajuda a pagar a conta de internet e as compras do supermercado, além de liberar tempo para estudar, fazer atividades acadêmicas e participar da vida universitária.

"Eu já queria ser professora, mas quando o benefício surgiu, ele me incentivou a focar para entrar na universidade. Hoje, vejo vários colegas que não conseguiram nenhuma bolsa trabalhando o dia inteiro, chegando cansados na aula. Acaba sendo bem difícil para eles. Me sinto privilegiada diante disso", relatou Heloísa.

Como funciona o programa

O Pé-de-Meia Licenciaturas foi lançado em janeiro de 2025 como parte da iniciativa Mais Professores para o Brasil. O objetivo é atrair estudantes com bom desempenho no Enem para os cursos de formação de professores, reduzir a evasão e estimular o ingresso de novos docentes nas redes públicas de ensino.

O benefício total é de R$ 1.050 mensais. Desse valor, R$ 700 ficam disponíveis para saque imediato e R$ 350 são depositados em uma poupança, liberada posteriormente mediante o cumprimento das regras do programa.

Para participar, o estudante precisa atender aos seguintes critérios:

  • Ter obtido média igual ou superior a 650 pontos no Enem;
  • Ter ingressado em uma licenciatura presencial pelo Sisu, Prouni ou Fies;
  • Cadastrar o currículo e realizar a pré-inscrição na Plataforma Freire.

Para manter a bolsa, o beneficiário deve permanecer com matrícula ativa e cursar pelo menos duas disciplinas por semestre. Na renovação anual, precisa atingir a média mínima exigida pela instituição. Quem não alcançar esse desempenho pode manter o benefício se comprovar participação em atividades como iniciação à docência, extensão, tutoria ou monitoria.

A transferência de curso implica o desligamento do programa. A reintegração é possível caso o estudante ingresse novamente em uma licenciatura pelas mesmas vias e continue cumprindo os critérios.

Os R$ 350 acumulados mensalmente só podem ser sacados após a conclusão do curso e o ingresso como professor em uma rede pública de educação básica, dentro de um prazo de cinco anos. Quem receber a bolsa durante quatro anos pode acumular até R$ 16,8 mil nessa poupança, considerando 48 parcelas de R$ 350.

As inscrições seguem em fluxo contínuo até 19 de dezembro deste ano, enquanto houver vagas disponíveis.

Números no Brasil e em Mato Grosso do Sul

De acordo com dados públicos da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), o programa atende atualmente 14.139 estudantes em todo o Brasil. Em Mato Grosso do Sul, são 108 beneficiários, distribuídos da seguinte forma:

  • UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul): 57 estudantes;
  • UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul): 31 estudantes;
  • UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados): 19 estudantes;
  • IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul): 1 estudante.

Além do Pé-de-Meia Licenciaturas, estudantes em situação semelhante à de Mariana podem buscar outras opções de apoio financeiro, como o programa MS Supera, do governo estadual, e iniciativas do CNPq e da Capes voltadas à formação acadêmica.

Com informações de campograndenews.com.br.

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