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Diplomacia e Tradição Global
Tradição e diplomacia: Por que o Brasil é o primeiro a discursar na ONU?
Lula viaja para a Assembleia Geral da ONU em 2026. Entenda a origem histórica e a importância estratégica da tradição que coloca o Brasil como o primeiro orador do debate global desde 1949.
Foto: Reprodução/G1
G1
Jornalista
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva viaja para Nova York neste domingo, 20 de setembro de 2026, para participar da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Seguindo uma tradição diplomática de décadas, o Brasil será o primeiro Estado-membro a discursar no debate global, previsto para ocorrer na próxima terça-feira, dia 22.
Na quarta-feira (17/9), Lula comentou sobre seus objetivos na viagem e mencionou que pretende dialogar com o presidente dos Estados Unidos. "No domingo, eu vou para a reunião da ONU para ter um bate-papo com o [presidente americano Donald] Trump e dizer: não se meta nas eleições do Brasil. O Brasil só tem um dono, que é o povo brasileiro", afirmou o presidente.
Origem da tradição
A primazia brasileira na abertura dos discursos não consta em regras escritas, sendo fruto de uma praxe consolidada. De acordo com a publicação "O Brasil nas Nações Unidas, 1946-2011", a prática teve início em 1949. Na época, em meio às tensões da Guerra Fria, a escolha do Brasil serviu para evitar que Estados Unidos ou União Soviética tivessem a precedência no palanque.
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Atualmente, o protocolo funciona por meio de uma consulta formal. Todos os anos, o secretário-geral da ONU envia uma nota à missão brasileira questionando se o país deseja manter a tradição. Com a resposta positiva, o Brasil assegura o primeiro lugar na lista de oradores, seguido pelos Estados Unidos, que ocupam a posição de país anfitrião.
Importância diplomática
Especialistas apontam que a posição de destaque reflete o papel histórico do Brasil na fundação da ONU. O professor Lucas Leite, da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), recorda que a diplomacia brasileira foi ativa na elaboração da Carta da ONU e que o diplomata Oswaldo Aranha presidiu a primeira Assembleia Geral, conduzindo temas sensíveis como a criação do Estado de Israel.
Para o Brasil, o discurso de abertura é visto como uma ferramenta estratégica. Em vez de focar apenas em temas locais, as delegações brasileiras costumam utilizar o espaço para:
Projetar visões sobre a conjuntura internacional;
Defender o multilateralismo e a reforma de instituições globais;
Pautar temas estruturais, como o combate à fome e o desenvolvimento sustentável;
Atuar como mediador de consensos entre diferentes blocos de países.
Visibilidade global
A ordem dos discursos coloca o Brasil sob os holofotes da imprensa e de chefes de Estado. Segundo o especialista Paulo Velasco, falar antes dos Estados Unidos garante uma audiência maior, já que muitas delegações já estão presentes no plenário aguardando o pronunciamento americano. "O Brasil acaba tendo mais repercussão do que outros países, que falam em dias seguintes", explica Velasco.
Embora a tradição seja mantida desde 1955 de forma constante, houve raras exceções. Em 1983 e 1984, os Estados Unidos discursaram antes do Brasil. Já em 2016, o Chade ocupou o segundo lugar na ordem de falas porque o então presidente americano se atrasou para o evento.