Agência com apuração local · publicado originalmente por Forbes Brasil
Segurança Digital e Governança
Shadow AI: 82% das Empresas no Brasil Enfrentam Riscos com Uso Não Autorizado de IA
Pesquisa revela que o uso clandestino de IA, o 'shadow AI', atinge 82% das empresas brasileiras, resultando em vazamentos de dados e multas pesadas. Entenda os impactos financeiros e jurídicos.
Foto: Reprodução/Forbes Brasil
Forbes Brasil
Jornalista
Uma pesquisa realizada pela SAP em parceria com a Oxford Economics revelou que 82% das empresas brasileiras enfrentam o uso não autorizado de ferramentas de inteligência artificial (IA) por seus colaboradores. A prática, denominada "shadow AI", ocorre quando funcionários utilizam contas pessoais ou plataformas não homologadas para realizar tarefas profissionais, como a elaboração de relatórios, análise de documentos e criação de códigos, sem a supervisão das organizações.
O levantamento, que ouviu 200 líderes empresariais no Brasil, aponta que a falta de controle já gera impactos negativos. Entre as empresas consultadas, 43% relataram vazamento de dados ou exposição de propriedade intelectual. Outras vulnerabilidades citadas incluem falhas de segurança (32%) e violações de conformidade (31%).
Impactos financeiros e operacionais
De acordo com dados da IBM, o custo médio de uma violação de dados no Brasil chegou a R$ 7,19 milhões em 2025. Esse valor engloba despesas com a identificação do incidente, interrupção de atividades, recuperação de sistemas e perda de negócios. Em nível global, organizações com uso elevado de "shadow AI" registraram custos de vazamento, em média, US$ 670 mil superiores aos de empresas com maior controle tecnológico.
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Rui Botelho, CEO da SAP Brasil, destaca que, embora a prática fosse conhecida, as consequências estão mais nítidas. “Agora está mais evidente o resultado, o impacto que isso traz”, afirma o executivo sobre os riscos da utilização de ferramentas sem governança.
A facilidade de acesso contribui para o cenário, já que ferramentas de IA generativa podem ser usadas diretamente no navegador, sem passar pelo inventário da área de tecnologia. “A adoção avançou como hábito difuso, de uso conforme conveniência pessoal, enquanto a estrutura de controle ficou para trás”, avalia Loyanna Menezes, CEO do escritório Abi-Ackel Advogados.
Riscos jurídicos e trabalhistas
O uso inadequado da tecnologia também traz implicações legais. Sob a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) pode aplicar multas de até 2% do faturamento, limitadas a R$ 50 milhões por infração. Além das multas, as empresas enfrentam a perda de confiança de clientes e a exposição de segredos comerciais.
No âmbito trabalhista, o envio de informações confidenciais para IAs públicas pode configurar falta grave. Segundo Ricardo Calcini, professor do Insper, o vazamento de dados hoje muitas vezes ocorre em tarefas rotineiras em busca de produtividade. “Hoje, esse vazamento é feito dentro do próprio guarda-chuva da empresa”, explica. O especialista ressalta que o uso de dados sensíveis em plataformas não autorizadas pode fundamentar demissões por justa causa, conforme previsto na CLT.
Desafios de governança
Embora a inteligência artificial já apoie 26% das tarefas nas companhias brasileiras, apenas 18% adotam a tecnologia de forma integrada. A pesquisa da SAP detalha as lacunas de controle nas empresas:
Apenas 15% consideram seus processos totalmente preparados para governar a IA;
Cerca de 29% não possuem controles de permissão e acesso;
Somente 50% mantêm um registro formal dos sistemas de IA utilizados no negócio.
Especialistas recomendam que o bloqueio de ferramentas não seja a única estratégia, uma vez que políticas baseadas apenas em proibição costumam ter limites. A orientação é que as empresas designem responsáveis pela governança, estabeleçam regras claras sobre quais dados podem ser inseridos e ofereçam alternativas corporativas seguras para o uso da tecnologia.