Bolsa brasileira encerrou quinta (17) com alta de 0,24%, aos 185.992 pontos, após forte volatilidade causada pelo reajuste de 15% no Bolsa Família e decisões de juros no Brasil e nos EUA.
O Ibovespa encerrou a sessão desta quinta-feira (17) em alta de 0,24%, aos 185.992,03 pontos, após uma tarde marcada por forte volatilidade provocada pelo anúncio do reajuste de 15% no Bolsa Família, decisões de juros no Brasil e nos Estados Unidos e repercussão de pesquisas eleitorais.
Durante a manhã, o índice chegou a recuar 1,24%, atingindo a mínima de 183.242,27 pontos por volta das 10h45. A máxima do dia foi de 186.885 pontos, o que representa uma oscilação de cerca de 3.600 pontos entre os extremos da sessão.
O impacto do Bolsa Família
O anúncio do aumento no benefício social reacendeu preocupações com as contas públicas e fez investidores exigirem prêmios maiores para manter posições em ativos brasileiros. Segundo o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, o reajuste terá custo de R$ 5,8 bilhões em 2026 e de aproximadamente R$ 22 bilhões em 2027.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, sinalizou que o aumento "cabe no Orçamento", mas o mercado reagiu com cautela diante da ausência de detalhes sobre a compensação fiscal da medida.
Para Gustavo Assis, CEO da Asset, o anúncio deslocou o foco do pregão. "O anúncio do reajuste do Bolsa Família alterou o eixo do pregão. Pela manhã, o mercado reagia principalmente às decisões do Copom e do Federal Reserve, com queda do dólar e tentativa de recuperação do Ibovespa. Depois do anúncio, a questão fiscal voltou ao centro da precificação, levando o câmbio a virar para alta e a Bolsa a intensificar as perdas durante a manhã", afirmou.
Assis destacou que a preocupação dos investidores não é com o programa em si, mas com a falta de clareza sobre seu financiamento. "O problema está na combinação entre o caráter permanente da despesa e a falta de clareza sobre como ela será financiada", disse.
Na mesma avaliação, João Ferreira, sócio da One, classificou a iniciativa como parte de uma tendência conhecida. "Medidas como essa em período eleitoral não são novidade no Brasil. Elas apenas indicam aprofundamento ou continuidade de uma política fiscal expansionista", afirmou.
Gustavo Silva, sócio-fundador da Private Investimentos, também destacou as dúvidas geradas pelo momento do anúncio. "A medida tem um efeito social e de renda importante, mas, sob a ótica do mercado, o momento do anúncio e o aumento de despesas levantam novamente dúvidas sobre a trajetória dos gastos públicos e a sustentabilidade da dívida no longo prazo", declarou.
Recuperação à tarde
O índice foi amenizando as perdas ao longo da tarde e voltou a operar em território positivo. Parte da recuperação foi sustentada pela valorização das ações da Vale (VALE3), que subiram cerca de 2% acompanhando o movimento das mineradoras no exterior. Na China, o contrato futuro de minério de ferro mais negociado na Bolsa de Commodities de Dalian fechou com alta de 0,28%, a 710,5 iuanes (US$ 105,92) por tonelada.
Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, apontou que a retomada também foi influenciada pela repercussão de pesquisas eleitorais, especialmente a da AtlasIntel divulgada na manhã desta quinta-feira, que indicou fortalecimento de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno e distanciamento maior em relação ao presidente Lula no segundo turno — embora os dois sigam tecnicamente empatados.
Perri também fez uma comparação com o cenário de 2022 para relativizar o impacto eleitoral do benefício. "Tomando como referência o próprio governo de Jair Bolsonaro, o aumento expressivo do benefício em 2022, por meio da 'PEC Kamikaze', não foi suficiente para reverter o cenário eleitoral, culminando em uma derrota expressiva na região Nordeste", avaliou. Para ele, o governo Lula ampliou o Bolsa Família, mas a medida impacta um eleitorado que já lhe é favorável, sem demonstrar eficácia na conquista de novos apoios.
Juros no Brasil e nos EUA
Antes do anúncio do Bolsa Família, as atenções estavam voltadas para as decisões de política monetária da chamada "Super Quarta". Nos Estados Unidos, o Federal Reserve elevou os juros em 0,25 ponto percentual. No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic de 14% para 13,75%, em linha com as expectativas do mercado.
Para Kevin Oliveira, sócio e advisor da Blue3, o efeito combinado das duas decisões é a redução gradual do diferencial de juros entre os dois países. "A frase principal desta semana e dos próximos meses é que o carry trade está diminuindo", afirmou, sinalizando que isso pode reduzir a atratividade dos ativos brasileiros para investidores estrangeiros.
João Daronco, analista da Suno Research, avaliou que ambas as decisões já estavam precificadas. "Sempre existe algum movimento de realização de lucros, mas a diminuição do diferencial de juros deixa o Brasil relativamente menos interessante para o investidor estrangeiro do que era anteriormente", disse.
Analistas alertam que a elevação dos juros futuros, especialmente nos vencimentos mais longos, tende a reduzir o valor presente das empresas listadas e elevar o custo de capital, penalizando setores como varejo, construção civil e companhias mais endividadas.
Com informações de infomoney.com.br.