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Agência com apuração local · publicado originalmente por Diário do Nordeste

Economia e Consumo

Canetas emagrecedoras e juros altos pressionam bares e restaurantes de Fortaleza

Setor de alimentação de Fortaleza enfrenta queda nas margens com endividamento familiar, Selic alta e mudança de hábitos ligada ao uso de medicamentos GLP-1.

Canetas emagrecedoras e juros altos pressionam bares e restaurantes de Fortaleza
Foto: Reprodução/Diário do Nordeste

Diário do Nordeste

Jornalista

O setor de bares e restaurantes de Fortaleza vive um momento de pressão sobre as margens de lucro, impulsionado por uma combinação de fatores econômicos e por uma mudança de hábitos alimentares ligada ao crescimento do uso das chamadas canetas emagrecedoras — medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida. O debate ganhou visibilidade na capital cearense após o pedido de recuperação judicial do grupo Cervejaria Turatti, com dívidas que ultrapassam R$ 12 milhões.

Na decisão que acolheu o pedido, o juiz Cláudio Augusto Marques de Sales resumiu os argumentos apresentados pelo grupo, entre eles o impacto dos medicamentos GLP-1. "A expansão massiva do uso de análogos do receptor GLP-1 (as canetas emagrecedoras) provocou redução documentada do apetite e do consumo de bebidas alcoólicas, somada ao declínio estrutural e geracional do consumo de álcool pela Geração Z", registra o documento judicial.

Para especialistas, porém, as canetas são apenas um dos elementos de um cenário mais amplo. A taxa Selic em 13,75% ao ano, a inflação de quase 4% e o endividamento das famílias também pesam sobre o orçamento destinado ao lazer. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho. No Ceará, o quadro é ainda mais grave: mais da metade da população adulta — 52,59% — está inadimplente, conforme o Mapa da Inadimplência da Serasa de agosto deste ano, o maior índice do Nordeste.

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O economista Thiago Holanda, membro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), aponta que o problema central está na queda do consumo dos itens mais rentáveis. "Um prato principal pode gerar receita alta, mas normalmente utiliza mais insumos, mão de obra e tempo de produção do que bebidas e sobremesas de alta margem. O estabelecimento pode apresentar salão cheio e, ainda assim, enfrentar deterioração do resultado operacional caso o ticket médio e a margem por cliente estejam caindo", afirma.

A presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Ceará (Abrasel-CE), Taiene Righetto, descreve o fenômeno como o "efeito tesoura". "A mesa ocupada por um cliente que gasta R$ 60 tem praticamente o mesmo custo fixo de uma mesa em que se gasta R$ 120. Continuam existindo aluguel, folha de pagamento, energia, gás, impostos e toda a estrutura", explica.

Righetto reconhece que as canetas emagrecedoras são uma realidade, mas rejeita que sejam a causa principal das dificuldades do setor. "Colocar nas canetas emagrecedoras a responsabilidade pelo fechamento de empresas ou pelos pedidos de recuperação judicial seria, na minha avaliação, olhar apenas para a ponta do iceberg", diz. Para ela, a preocupação maior está no conjunto: "Há desequilíbrio nas contas públicas, juros muito altos, famílias fortemente endividadas, crédito caro e perda de poder de compra".

Holanda alerta que, se a compressão das margens continuar, o setor pode passar por um processo de consolidação. "Com sobrevivência dos operadores financeiramente mais eficientes", projeta o economista.

Redes de proteína seguem estáveis

Nem todos os segmentos sentem o impacto da mesma forma. Estabelecimentos com cardápio centrado em proteína relatam estabilidade nas vendas, já que esse macronutriente é justamente o mais consumido por quem usa os medicamentos emagrecedores.

Fernando Ribeiro, CEO da SB Franquias, responsável pelo restaurante Sal e Brasa Grill Express, observou uma migração gradual no perfil de consumo: menos carboidratos pesados, mais saladas, vegetais, porções extras de proteína, refrigerantes zero e cervejas sem álcool. Com as vendas estáveis, a rede projeta faturamento entre R$ 18 milhões e R$ 20 milhões no Ceará neste ano, com crescimento estimado de 5% a 10% nas unidades existentes e abertura de uma nova loja no Shopping Eusébio, na Grande Fortaleza.

A rede Coco Bambu também registra estabilidade. Segundo a empresa, de janeiro a agosto de 2026 houve retração de 3% no número de contas de salão nas unidades do Ceará em relação ao mesmo período do ano anterior, mas o movimento foi compensado por um aumento de 4% no ticket médio. A rede projeta faturamento de R$ 185 milhões para suas oito unidades no Estado e planeja abrir uma nova operação.

Mercado nacional em adaptação

O cenário de Fortaleza reflete uma tendência nacional. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), compilados pela Fiquem Sabendo e analisados pela Abrasel, mostram que a venda de medicamentos com semaglutida e tirzepatida cresceu 23,2% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior.

No Ceará, as unidades vendidas em farmácias saltaram de 17 mil em janeiro para 24 mil em agosto de 2026 — alta de cerca de 41%. Entre janeiro e agosto, foram comercializadas 160.409 unidades no Estado, o equivalente a 2,6% das quase 6,2 milhões de unidades vendidas no país no mesmo período.

Um levantamento da Abrasel revelou que 61% dos empresários do setor de alimentação fora do lar no Brasil já identificam mudanças ligadas aos inibidores de apetite. Entre os efeitos mais citados estão:

  • Aumento na procura por porções menores (64%)
  • Redução no consumo de sobremesas (65%)

A Pesquisa Anual Setorial de Food Service ABF/Galunion aponta que 53% das redes de franquia de alimentação no país já realizaram adaptações nos cardápios em função do avanço dos medicamentos GLP-1, com foco em opções saudáveis, refeições leves e ricas em proteína.

Simone Galante, fundadora e CEO da Galunion, avalia que os números indicam uma transformação já em curso na operação das redes. "Quando mais da metade das redes pesquisadas declara ter feito alguma adaptação no cardápio, estamos diante de um movimento que merece ser acompanhado de perto. Não se trata apenas de reduzir itens, mas de entender novas ocasiões de consumo, tamanho de porções, composição do menu e o papel que a alimentação passa a ter na jornada desse consumidor", afirma.

A Abrasel-CE reforça que a queda de patente dos medicamentos e sua possível chegada às classes C e D devem aprofundar as mudanças no comportamento do consumidor, exigindo novas rodadas de adaptação do setor.

Com informações de Diário do Nordeste.

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