Agência com apuração local · publicado originalmente por Revista Oeste
Política Monetária
Copom corta Selic pela 5ª vez seguida, mas inflação acima da meta preocupa economistas
Banco Central reduz juros em meio à desaceleração econômica, mas IPCA projetado em 5,2% para 2026 mantém dilema entre crescimento e controle inflacionário.
Foto: Reprodução/Revista Oeste
Revista Oeste
Jornalista
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou, na quarta-feira, 16 de setembro de 2026, a quinta redução consecutiva da taxa Selic, em meio a um cenário que combina desaceleração em setores cíclicos da economia e pressão inflacionária persistente, sobretudo no setor de serviços.
Apesar de a inflação geral apresentar recuo, as projeções do Banco Central ainda a mantêm acima da meta oficial de 3%. A estimativa para o IPCA em 2026 é de 5,2%.
Para o economista Rodrigo Xavier, CEO da corretora Oz Câmbio e formado em Economia pelo Insper, a desaceleração dos setores cíclicos é um elemento central na avaliação do Banco Central sobre a diferença entre a capacidade produtiva da economia e sua demanda efetiva.
Publicidade
Os setores cíclicos são os mais sensíveis a juros elevados, como comércio de bens financiáveis, indústria, construção civil e parte do setor de serviços. Todos são diretamente afetados pelo aumento no custo do crédito e do financiamento.
"A indústria de transformação e o comércio são fortemente sensíveis ao custo do crédito e às taxas de juros reais de longo prazo", afirmou Xavier. "Quando esses setores mostram sinais de arrefecimento, isso sinaliza uma desaceleração da demanda agregada."
Segundo o economista, o Copom interpreta essa perda de fôlego nos segmentos mais dependentes de crédito como sinal de que a política monetária anterior cumpriu parte de seu papel no combate à inflação.
"Trata-se do clássico dilema da calibração monetária", destacou Xavier. "A inflação cheia pode até dar sinais de convergência, mas a persistência de núcleos inflacionários elevados — como o setor de serviços, que é intensivo em mão de obra — exige extrema cautela."
O economista ressaltou que a redução não representa abandono do compromisso com as metas de inflação, mas sim um ajuste de dosagem na política monetária.
No campo fiscal, a queda da Selic traz alívio ao governo. "A queda da Selic reduz o custo de rolagem da dívida pública — que é fortemente atrelada à taxa flutuante —, gerando um alívio nas contas fiscais do Tesouro", explicou Xavier.
A médio prazo, o crédito mais acessível tende a favorecer o investimento, o consumo das famílias e o nível de emprego, segundo o economista.
No entanto, Xavier alertou para o fator tempo. "O efeito não é imediato devido à defasagem da política monetária, que leva entre 6 e 9 meses para se transmitir integralmente à economia real", disse. Ele apontou o risco de que expectativas de aceleração econômica no curto prazo não se concretizem, ou de um eventual repique inflacionário caso o mercado interprete o movimento como prematuro.
Para o economista, decisões políticas não influenciam as deliberações do Copom. "O BC não atua com base em calendário eleitoral ou pressões conjunturais da política, mas sim com base no sistema de metas para a inflação e na estabilidade do sistema financeiro", concluiu Xavier.