Agência com apuração local · publicado originalmente por CNN Brasil
Desastre Climático Global
Avalanche glacial no Himalaia: ciência explica catástrofe que matou 1.300 na fronteira Nepal-China
Mais de 20 cientistas da WWA concluíram que mudanças climáticas, permafrost degradado e terremoto de 2015 combinaram-se para gerar o desastre sem precedentes no Himalaia.
Foto: Reprodução/CNN Brasil
CNN Brasil
Jornalista
Uma análise científica internacional concluiu que as inundações que devastaram a fronteira entre o Nepal e a China em agosto foram resultado de uma série de fatores encadeados, agravados pelas mudanças climáticas causadas pela ação humana. O desastre matou pelo menos 1.300 pessoas e deixou mais de 5.000 desaparecidas.
O estudo foi conduzido por mais de 20 especialistas da World Weather Attribution (WWA), rede dedicada a investigar o papel do aquecimento global em eventos climáticos extremos. O relatório utilizou métodos revisados por pares, mas ainda não passou por revisão formal.
O que aconteceu
Em 26 de agosto, um bloco de rocha e gelo glacial com cerca de 600 metros de largura se desprendeu da montanha Langtang Lirung e caiu aproximadamente 2.100 metros, atingindo o rio abaixo. O impacto liberou energia equivalente à de um terremoto de magnitude 5,2.
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A força da queda foi suficiente para derreter o gelo quase instantaneamente. A massa arrastou sedimentos úmidos e provavelmente colidiu com gelo soterrado no fundo do vale, gerando uma onda de inundação que percorreu mais de 30 quilômetros rio abaixo em alta velocidade.
Walter Immerzeel, hidrólogo de montanha da Universidade de Utrecht, na Holanda, classificou o evento como "um desastre sem precedentes" no Himalaia.
Causas identificadas
Os cientistas não identificaram um único gatilho, mas uma combinação de processos que atuaram em conjunto ao longo do tempo:
Um terremoto de magnitude 7,8 registrado em abril de 2015 pode ter enfraquecido a encosta da montanha, que desde então apresenta taxas crescentes de deslizamentos de terra;
A linha do "grau zero" — altitude na atmosfera onde a temperatura atinge 0°C — está subindo mais de 97 metros por década no Himalaia, segundo o relatório;
O aumento das temperaturas está degradando o permafrost nas altas altitudes do Nepal. Segundo Immerzeel, esse processo "reduz a resistência da rocha e permite que mais água penetre na encosta";
A geleira Langtang-Lirung vem encolhendo e afinando nas últimas décadas, especialmente após 2010, tornando a encosta menos estável;
No outono anterior ao desastre, houve volumes excepcionais de neve na região. Julho e agosto seguintes foram os meses mais quentes já registrados na área, o que pode ter gerado grande quantidade de água de degelo.
Influência do clima
Os pesquisadores calcularam que as temperaturas de julho e agosto na região estão cerca de 1,5°C mais altas em razão das mudanças climáticas. As temperaturas anuais da área aumentaram 2°C, valor bem acima da média global.
Friederike Otto, professora de ciências climáticas do Imperial College London, afirmou que "não há absolutamente nenhuma dúvida de que as mudanças climáticas induzidas pelo homem desempenharam um papel importante no contexto do desastre".
Limites da prevenção
Os cientistas concluíram que o colapso foi diferente em tamanho, velocidade e complexidade de qualquer evento já registrado na região. Segundo o relatório, "nenhum sistema de alerta precoce existente teria sido capaz de fornecer tempo suficiente".
"É um daqueles tipos de eventos que estão absolutamente fora dos limites da nossa capacidade de adaptação", disse Otto. Ela acrescentou que, sem redução rápida da poluição por combustíveis fósseis, o mundo "inevitavelmente verá mais desastres dessa magnitude".
Enquanto as buscas por desaparecidos dão lugar a operações de recuperação, o Nepal enfrenta o desafio da reconstrução de cidades, estradas e pontes destruídas pela avalanche de gelo e rochas.