Agência com apuração local · publicado originalmente por BBC
Ciência e Saúde
Genética, hábitos e medicamentos: por que a cafeína afeta cada pessoa de um jeito diferente
Genes, velocidade de metabolização e uso de medicamentos explicam por que o café deixa alguns em alerta total enquanto outros mal sentem seu efeito.
Foto: Reprodução/BBC
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Jornalista
A cafeína é a substância psicoativa mais consumida no mundo, presente em mais de dois bilhões de xícaras de café ingeridas diariamente, além de refrigerantes, bebidas energéticas, chocolates, chicletes e suplementos esportivos. Ainda assim, seus efeitos variam enormemente de pessoa para pessoa — e a ciência já tem algumas respostas para explicar essa diferença.
A substância age no cérebro bloqueando a adenosina, composto que se acumula ao longo do dia e provoca a sensação de sono. Com isso, a cafeína não fornece energia extra ao organismo, mas mascara o cansaço e pode aumentar o estado de alerta e a concentração. Em excesso, porém, pode causar dores de cabeça, nervosismo e aceleração dos batimentos cardíacos.
Um dos fatores centrais para entender as diferenças entre as pessoas é o tempo que a cafeína leva para ser eliminada pelo organismo. Após ser absorvida pela corrente sanguínea, ela é metabolizada por uma enzima no fígado e excretada na urina — processo que pode durar de seis a 20 horas, dependendo do indivíduo, segundo Marilyn Cornelis, professora associada de nutrição da Universidade Northwestern, em Chicago.
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"É possível tomar a primeira xícara de café e talvez não sentir os efeitos", afirma Cornelis. "Mas duas ou três horas depois, a cafeína ainda está presente no organismo e, se você tomar uma segunda xícara, isso pode ser o suficiente para desequilibrar a balança e você começar a se sentir um pouco ansioso."
Essa velocidade de metabolização é determinada em grande parte por um único gene, o CYP1A2. Um estudo publicado este ano apontou que europeus e sul-americanos tendem, em média, a processar a cafeína mais rapidamente do que outras populações.
Outros fatores também interferem nesse processo. Fumar — mas provavelmente não o cigarro eletrônico — pode acelerar a metabolização da cafeína em até 65%, o que ajudaria a explicar por que fumantes costumam consumir mais café e por que quem para de fumar pode passar a sentir os efeitos da bebida com mais intensidade.
Alguns antibióticos, pílulas anticoncepcionais e outros medicamentos prescritos têm o efeito contrário, fazendo com que a cafeína permaneça mais tempo no organismo. O mesmo ocorre durante a gravidez, quando alterações hormonais reduzem a ação da enzima hepática responsável pela metabolização da substância.
O consumo regular de café também reduz a sensibilidade à cafeína ao longo do tempo, à medida que o corpo se adapta à presença da substância. Quem fica sem a bebida por algumas semanas pode notar que o primeiro café após o período de abstinência provoca uma sensação mais intensa de agitação.
Pesquisadores do sono recomendam evitar cafeína pelo menos seis horas antes de dormir. Lindsay Browning, psicóloga e especialista em sono, vai além e alerta que a substância pode não apenas dificultar o adormecer, mas também prejudicar a qualidade do sono.
"Costumo sugerir às pessoas que evitem a cafeína depois de cerca das 14h se forem dormir por volta das 22h", diz Browning. "Mas uma regra rígida e inflexível não é útil, porque não leva em consideração as complexidades e a individualização do que realmente está acontecendo."
Gestantes recebem orientação específica: o NHS, Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, recomenda que mulheres grávidas mantenham o consumo de cafeína abaixo de 200 mg por dia — equivalente a cerca de duas xícaras de café coado —, pois estudos associaram o consumo excessivo a baixo peso ao nascer e outras complicações.
Para os demais adultos, a orientação é a moderação. "A cafeína é relativamente segura", afirma Peter Rogers, professor emérito de nutrição da Universidade de Bristol. "Se você consumir uma grande quantidade, começará a se sentir agitado e indisposto, e perceberá: 'Preciso parar com isso, não adianta tomar mais'."
Casos de overdose de cafeína são raros, e os envenenamentos graves quase sempre envolvem produtos com alta concentração da substância, nos quais vários gramas podem ser ingeridos em poucos minutos.
Para quem aprecia o hábito, há uma boa notícia: décadas de estudos associam o consumo moderado de café a menor risco de diversas doenças graves e até a uma expectativa de vida ligeiramente maior em comparação a quem não consome a bebida — embora os pesquisadores ressaltem que não é possível atribuir esse resultado exclusivamente ao café.