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Revista São Roque
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Agência com apuração local · publicado originalmente por Times Brasil

Crise Global de Alimentos

Trigo atinge maior preço em 3 anos: guerra, clima e El Niño ameaçam abastecimento global

Combinação de conflito no Mar Negro, secas na Europa e El Niño impulsiona trigo a pico histórico, pressionando indústria alimentícia e consumidores ao redor do mundo.

Trigo atinge maior preço em 3 anos: guerra, clima e El Niño ameaçam abastecimento global
Foto: Reprodução/Times Brasil

Nathalia Gimenes

Jornalista

O preço do trigo chegou ao maior patamar em três anos nos mercados atacadistas internacionais, pressionado pela redução das exportações pelo Mar Negro, por perdas nas colheitas em grandes países produtores e pela alta nos custos de energia e transporte.

De acordo com o índice da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a commodity registrou alta de 2,6% em agosto e acumula valorização de 15% na comparação com o mesmo período do ano anterior. O indicador leva em conta os preços praticados nos mercados internacionais, incluindo a Bolsa Mercantil de Chicago.

Em 4 de setembro, a FAO informou que os preços globais dos alimentos estavam no nível mais elevado desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022.

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Guerra limita exportações pelo Mar Negro

Rússia e Ucrânia respondem juntas por aproximadamente um terço do comércio mundial de trigo. No entanto, ataques a navios graneleiros e a instalações portuárias comprometeram a capacidade de exportação dos dois países.

Segundo relatório da União dos Agricultores Ucranianos (UAC), divulgado em 27 de agosto, as exportações ucranianas correspondem atualmente a 31% do volume potencial do país. Já o presidente russo, Vladimir Putin, declarou em 1º de setembro que forças ucranianas haviam danificado cerca de 100 navios em 40 dias.

O banco Rabobank avalia que os danos aos portos não devem ser resolvidos no curto prazo, e seus analistas consideram pouco provável a criação rápida de rotas alternativas. Com isso, compradores passaram a buscar fornecedores mais distantes, como Austrália e Argentina, o que eleva os custos de transporte e torna o abastecimento mais dependente das próximas safras.

Clima prejudica colheitas na Europa e nos EUA

Além do conflito, as condições climáticas também preocupam o setor. França e Estados Unidos enfrentaram períodos de seca que afetaram as perspectivas de colheita. Na Europa, ondas de calor reduziram o valor da produção de cereais em cerca de € 2 bilhões — aproximadamente R$ 11,81 bilhões — somente em junho.

A França, maior produtora de trigo da União Europeia, está entre os países mais afetados. Na Espanha, segundo Ignacio Huertas, da Associação de Pequenos Agricultores (UPA), a última colheita de trigo recuou cerca de 30% em relação ao ano anterior, resultado em parte das ondas de calor.

Ao mesmo tempo, agricultores enfrentam despesas maiores com energia e fertilizantes, de modo que a valorização do trigo não compensa integralmente o aumento dos custos de produção.

El Niño adiciona incerteza ao cenário

O fenômeno El Niño, associado ao aquecimento das águas superficiais do Pacífico tropical oriental, representa mais um fator de risco. O evento pode alterar padrões de temperatura e precipitação em diversas regiões e deve atingir seu pico no fim do ano.

A Austrália é um dos mercados monitorados com atenção, já que uma queda em sua produção eliminaria uma das principais alternativas para compradores que enfrentam dificuldades no Mar Negro. Mobeen Tahir, diretor de análise econômica da gestora WisdomTree, estima que a produção australiana poderia cair cerca de 9 milhões de toneladas com a chegada do El Niño.

Indústria de alimentos sente os efeitos

A valorização do trigo também pressiona empresas que utilizam farinha como matéria-prima. Grandes varejistas e companhias têm fechado contratos para garantir o abastecimento por pelo menos seis meses. Pequenos estabelecimentos, por comprarem semanalmente, sentem as oscilações de forma mais imediata.

Na padaria Luzón, em Madri, o aumento nos custos de farinha e outras matérias-primas já afeta o negócio, que tenta absorver parte da alta para não repassar todo o impacto aos consumidores.

Segundo Jorge de Saja, secretário-geral da Associação Espanhola da Indústria de Panificação, Pastelaria e Confeitaria (Asemac), o setor não espera reajustes nos preços até outubro, mas a incerteza cresce a partir daí. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) da Espanha indicam que o preço do pão no país apresentou crescimento relativamente moderado até o momento.

Ainda assim, a combinação de trigo, energia, transporte e fertilizantes mais caros continua pressionando as margens de agricultores e empresas ao longo de toda a cadeia produtiva.

Com informações de Times Brasil.

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